Nordestinos encontram qualidade de vida no Vale do Jequitinhonha


Publicado há 5 anos, 7 meses

Paula Lanza -  Jornalista e Comunicadora Popular da ASAMinas / Instituto Pauline Reichstul


Após percorrer 12 km em estrada de terra, a partir do centro de Rubim (Minas Gerais), cheguei à roça da Regivânia Bispo dos Santos – ou somente Vânia, como é conhecida. Lá, fui recebida por ela e por Vanderley Alves Pereira, seu marido, com cafezinho e tapioca recheada com queijo feito ali mesmo. Tudo fresquinho, preparado na hora pela dona da casa. Natural de Itabuna, no sul da Bahia, Vânia diz ter se acostumado à vida na cidade grande. 

Começou a trabalhar precocemente aos oito anos, idade que tinha quando o pai faleceu. Ela, as duas irmãs e os três irmãos conciliavam os estudos com a luta diária. Foi por isso que saiu da escola diversas vezes, concluindo o ensino médio aos 23 anos, em 2004.

Até 2006, vivia de empregos em casas de famílias, sorveterias, lanchonetes e, graças a sua experiência e a seus dotes culinários, costumava complementar a renda como "salgadeira". Foi nesse ano que conheceu Vanderley e que se mudou com ele para Minas Gerais. "Eu gostava da vida urbana, apesar de achar muito corrido. Nunca imaginei que me tornaria uma agricultora no Vale do Jequitinhonha", conta.

Hoje, ela e o marido cuidam diariamente de criações de plantas e animais, que ocupam um espaço de dois hectares em uma área total de 200 hectares disponíveis, entre horta, pomares e curral. Seguindo os princípios da agroecologia, cultivam espécies diversas de frutas, grãos, flores, raízes e sementes. O quintal produtivo é repleto de hortaliças, plantas medicinais, temperos, que crescem o ano todo, além de um galinheiro. Eles ainda contam com uma criação de ovinos, suínos e bovinos, que fornece a carne e o queijo para venda e consumo próprio. 

Dessa criação vem também um composto orgânico usado como fertilizante natural, obtido a partir do esterco dos animais misturado ao pó de serra. Além de prover alimento para a família, forragem para os animais, grãos para as galinhas e produtos variados, essa diversificação das atividades em um espaço reduzido recupera a fertilidade do solo e da vegetação, pois não é preciso aplicar venenos e nem adubos químicos. Ao valorizar o conhecimento agrícola, essa prática intensifica a segurança alimentar e nutricional, o acesso ao mercado e a preservação da biodiversidade.

A água para o cultivo de tudo isso e para consumo doméstico vem de um riacho que passa ao lado da propriedade. Para beber, eles a buscam em uma nascente ali também ao lado e, para regar os pés de banana, reutilizam a água da pia e do chuveiro. É da terra que eles tiram o alimento e a água de que precisam, assim como o sustento financeiro, uma vez que a maior parte da produção de queijo, mandioca, quiabo, alface, cebolinha, coentro, beterraba, cenoura, batata doce, mamão, laranja, limão, entre outros vai para a alimentação das crianças e jovens de Rubim, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Vânia e Vanderley entregam esses produtos, diariamente, na Secretaria Municipal de Educação, responsável pela distribuição e pagamento. Uma outra parcela – esta bem menor – eles levam para a feira de agricultores do distrito. Essa forma de atuação no mercado favorece a agricultura familiar, em detrimento do agronegócio monoculturista.

Da cidade para o campo
Como se pode ver, essa família não se encaixa naquele perfil do nordestino que vai para a cidade grande, nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, na ilusão de ter uma vida mais digna. No caso dos dois, que migraram de um cenário urbano na Bahia para uma zona rural de Minas Gerais, a qualidade de vida só tendeu a melhorar.

Vânia diz que uma das mais belas coisas que lhe aconteceram foi ter mudado para o campo. “Poder criar minha filha Maryna de quatro anos, solta entre as plantas e os bichos não tem preço. Sem falar no ar puro, nos alimentos frescos e livres de veneno, na rotina saudável”, afirma.

O mesmo pensa Vanderley. Quem conhece esse empreendedor agrícola, natural de Itambé, talvez nunca imagine que ele tenha trabalhado “a vida toda” como empregado em fazendas e em empresas na capital paulista. E muito menos como entregador de fast food e garçom nos Estados Unidos, aos 51 anos de idade. "A primeira vez que ouvi falar do Vale do Jequitinhonha foi nos EUA. Era conhecido como Vale da Miséria", relembra. "Lá sofri um acidente, fiquei mais de três meses entre a vida e a morte e felizmente estou aqui. Recebi uma indenização, voltei ao Brasil e logo conheci a Vânia". Curioso para visitar esse vale de que tanto se falava, o casal saiu da Bahia com destino à região em que hoje habitam, e compraram o pedaço de terra graças a essa quantia recebida. "Quem diria que conseguiríamos tirar tanta riqueza da terra do Vale da Miséria e ainda mantê-la sadia", diverte-se.

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